sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O olhar audiovisual em destaque

Aos poucos, o Rio Grande do Norte vai percebendo a importância de apoiar iniciativas ligadas ao audiovisual. Mesmo com um grupo escasso de produtores, aliado à falta de qualificação, os trabalhos que têm surgido já começam a se manifestar além dos limites potiguares. E essa é uma preocupação presente nos contemplados do Prêmio William Cobbett, primeiro edital de fomento à produção de documentários e produções ficcionais que se tem notícia no Estado. Divulgados essa semana, os quatro projetos serão contemplados com uma verba bruta de R$ 20 mil, cada, por intermédio da Fundação José Augusto (FJA), que recebeu, ao total, 24 projetos.

Um deles é o Música Potiguar Brasileira, assinado pela radialista Érica Lima. A ideia, conta ela, é apresentar em liguagem de documentário a efervecência e a diversidade do cenário musical potiguar na atualidade, especialmente grupos e artistas que residam em Natal e região metropolitana. "Também queremos partir para o interior, mas a questão de custos é um entrave. Por isso, inicialmente, vamos buscar pessoas que têm absorvido referências nacionais, mas também aquelas que estão criando estilos bem peculiares, como o coco de Khrystal, a mpb de Valéria Oliveira, particularidades do forró, a poesia musicada, enfim, mostrar essa mistura que se tem por aqui", destacou.

Érica vai receber cerca de R$ 14,5 mil, já que o prêmio retém impostos. "Quem trabalha com produção audiovisual sabe que é uma verba pequena, mas não deixa de ser uma iniciativa louvável, um estímulo grande que vai contribuir para o desenvolvimento do audiovisual no Estado", destacou ela, que apresenta o programa Olhar Independente, da TV Universitária da UFRN, e integra o grupo de produção ‘Caminhos, Comunicação e Cultura’, tendo produzido trabalhos como o documentário ‘Com quantas ave-marias se faz uma santa’ (2007), revelando a identidade cultural no Sertão Potiguar, e o doc-ficcão ‘Mais que um filme legendado’ (2008), protagonizado por um deficiente auditivo, ambos com apoio do Banco do Nordeste.

O jornalista Paulo Laguardia também foi contemplado com o prêmio ao inscrever o projeto Sebo Vermelho, o Cantão de Abimael, que visa contar a história do segundo sebo criado em Natal, porém o primeiro a se assumir como tal. "E não apenas isso. O documentário pretende enfocar o fato de o sebo ser o primeiro do país a editar livros, além de prestar importantes serviços à literatura e à cultura do Estado, e de ser considerado um ‘cantão’, local onde se reúnem grupos de intelectuais, literatos, funcionários públicos, políticos, comerciantes, bancários e outras pessoas comuns", explica, elogiando a iniciativa. "Mostra que finalmente o poder público está procurando apoiar a produção audiovisual".

Ele ressalta que seu documentário pretende contribuir ao reconhecimento do trabalho do sebista e editor Abimael Silva, sua importância para a cultura local e difundir as experiências adotadas pelo sebo, como edição de livros e promoção de eventos culturais. "Quem sabe essas experiências sejam adotadas em outros estados", almeja Laguardia, que dirigiu o documentário O vôo silenciado do Jucurutu (2007), desenvolvido com recursos federais a partir da terceira edição do programa de fomento ao audiovisual Doc TV, do Ministério da Cultura. Ele também tem produzido um documentário acerca da história do ex-prefeito de Natal Djalma Maranhão através das leis de incentivo à cultura do Estado e do município.

Denúncia ambiental visa salvar gruta em Caicó

Outro jornalista, Danilo Guanabara, foi contemplado com o projeto Pela Caridade, que pretende evidenciar aspectos da Gruta da Caridade, localizada na Serra da Cruz, em Caicó, e uma possível ameaça de soterramento devido ao trabalho de uma mineradora local. "A ação pode ocasionar o seu desaparecimento, já que a mineradora faz perfurações no solo próximo à gruta", alerta Danilo. Segundo ele, a denúncia partiu da Sociedade Espeleológica Potiguar, grupo que aponta a caverna como um patrimônio geológico importante do Estado, apresentando inscrições rupestres que datam de 10 mil anos atrás, além de um curso d’água.

"Eu os acompanhei em outros estudos e, durante uma viagem de campo, decidi fazer um roteiro", conta ele, que recentemente produziu o documentário Capanga Moderna, sobre a trajetória de Diogo Guanabara e sua parceria com o grupo Macaxeira Jazz. A produção foi fruto de seu trabalho de conclusão de curso, tendo sido apresentado na última edição do Goiamum Audiovisual. Na opinião do cineasta Buca Dantas, que colaborou na elaboração do edição do Prêmio Willian Cobbett, a iniciativa "é um marco por ser nosso primeiro edital de audiovisual. Já vale os parabens à FJA, em especial a Geraldo Cavalcanti, que batalhou por isso", destacou. O quarto projeto contemplado foi O Boi Redondo, de José Wanderley Costa Filho, mas a reportagem não conseguiu contato.

I Prêmio William Cobbet
Projetos Titulares
Música Potiguar Brasileira - Érica Lima
O Boi Redondo - José Wanderley Costa Filho
Sebo Vermelho, o Cantão de Abimael - Paulo Laguardia
Pela Caridade - Danilo Guanabara

Suplentes
Covinhas - Catarina Doolan Fernandes
Natal Sem Presente - Carlos Henrique Fontes Lisboa
Metralha Luiza - Marcelo Buainain
Antônio Francisco, o Poeta do Sertão - Bruna Mara Pereira Wanderley
Atlântida do Sertão - Kleber Rodrigues Bessa Pinheiro


* Reportagem de minha autoria publicada no Diário de Natal, sendo que aqui ela aparece completa.

** Foto: Divulgação/Solon Almeida


sábado, 4 de julho de 2009

Arte na Praça

Quem vive, trabalha ou simplesmente circula pelo coração do Centro Histórico de Natal, mesmo que de forma esporádica, certamente já andou pela Praça Padre João Maria. Uns a conhecem por ‘Praça da Matriz’, numa referência à Igreja Matriz Nossa Senhora da Apresentação (antiga catedral da cidade), datada de 1694. Outros ainda teimam em chamá-la de ‘Praça da Alegria’, como era batizada até 1909, quando, por ocasião da morte daquele que fora reconhecido como ‘Santo de Natal’, foi fixado um busto em sua homenagem, passando a praça a ser chamada de Pe. João Maria. E se o leitor ainda não se localizou, podemos indicar como referências os históricos edifícios 21 de Março e Ducal ou mesmo o antigo prédio do Cinema Nordeste, onde hoje funciona uma loja de departamentos.

Não importa que denominação receba, esta pracinha rodeada de história e de tantos serviços úteis à sociedade parece ter sido esquecida pelo poder público. Embora esteja sempre limpa e com os canteiros impecáveis, muitas vidas tiram dali o seu sustento que, a duras penas, bem poderia ser facilitado a partir de uma intervenção paisagística e logística que visasse, sobretudo, sua inserção no roteiro turítico de Natal. E, se não fosse pedir muito, bem que esse investimento poderia começar pela famosa feirinha de artesanato do local.

De longe, de perto ou mesmo do alto, a feira não consegue esconder o estado de feiúra em que se encontra há vários anos. Nem sequer os mais variados e belos artefatos lá expostos pelos artesãos ‘mais alternativos da cidade’ amenizam o desprezo por que passam seus 38 boxes, cujas lonas que os ‘protegem’ do sol e da chuva há muito não tem mais uma padronização. Se não bastasse, a estrutura, armada de uma frágil madeira, está se desfacelando, sendo um alvo fácil para arrombadores. ‘‘A gente tenta fazer uma coisa organizada. Cada um se organiza da maneira que dá’’, disse Damião Rodrigues, referindo-se à Associação dos Artesãos da Praça Padre João Maria.

Sem muito o que propor, apenas uma pequena quantia mensal de cada artesão é pedida para o pagamento de um vigia noturno. ‘‘A feira existe há mais de 40 anos e, desde então, temos tido apenas promessas não cumpridas dos políticos’’, reforça Damião, que mantém desde 1999 o box de número 19, vendendo lembranças, bijuterias e outros artefatos voltados, especialmente, aos turistas e cujos valores variam de R$ 1 a R$ 30,00. ‘‘Sobrevivo 100% deste trabalho, mas a baixa estação é sempre mais complicada’’.

Há 38 anos no mesmo ponto, o artista plástico Aderbal Marques Bezerra é outra figura muito conhecida da Cidade Alta. Do pequeno box de número 1, ele vende seus serviços de talhador, escultor, desenhista e artesão com custos que podem chegar a R$ 5 mil. ‘‘Depende do trabalho’’, disse. Diferente do que conta a maior parte dos ‘feirantes’, ele não vê muitas dificuldades para tirar da feira o seu sustento, mas não deixa de apontar soluções básicas que poderiam trazer mais conforto a eles próprios e aos clientes. ‘‘Sequer um banheiro público nós temos’’, disse o artista, que vê como ‘muito importante’ a padronização da feira. ‘‘Ela é muito útil à sociedade, mas uma boa imagem é essencial para conquistar mais clientes’’.

Fora da rota turística

A opinião de quem descobriu ou mesmo daqueles que não se consideram clientes cativos do local parece ser unânime ao classificar a Feira como ‘original e diversificada’, famosa também pelo baixo custo de seus produtos e serviços. ‘‘Encontramos esta feirinha por acaso. Nosso ônibus parou nas proximimidades da Prefeitura e resolvemos circular pelo centro da cidade. Sem dúvidas, esta é a feira mais diferente que vimos por aqui, pois foge completamente do comum’’, disse a paranaense Verônica Pontes, de férias em Natal com o marido, Pedro Fausto.

O casal de arquitetos sugeriu ainda que a Feira deveria estar incluída na programação do roteiro turístico de Natal. ‘‘Achamos estranho que uma feirinha tão simpática como esta não seja divulgada pelos hotéis ou mesmo nas publicações e sites turísticos da cidade’’, observou Pedro. Já a dona de casa Maria do Socorro, que reside nas proximidades da praça, diz que muitas vezes passa por ali, embora compre pouco. ‘‘Hoje, vim comprar uma vela para acender para o padre João Maria’’, disse ela, que se considera devota de todos os santos. ‘‘Só falta mesmo um incentivo maior que possa aumentar o movimento, pois a feira é o ganha-pão de todos que aqui trabalham’’.

Embora alguns dos artesãos tenham afirmado que a Prefeitura de Natal sinalizou para uma possível reestruturação da feira, a reportagem do Diário de Natal nada descobriu a respeito, embora não tenha conseguido entrar em contato com a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos até o fechamento desta edição. Já em conversa com a Fundação Capitania das Artes (Funcarte), ficou claro que o plano de intervenção do Centro Histórico não contempla a revitalização da Praça Pe. João Maria.


Clique e confira outras dicas da feira de artesanato da Pe. João Maria


* Reportagem de minha autoria publicada em O Poti/Diário de Natal, em 12 de abril de 2009.

** Fotos: D'Luca/DN.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Rio apreciado lá do alto

O guia oficial do Rio de Janeiro apresenta uma infinidade de destinos que agradam a todos os gostos. São mais de cem páginas divulgando eventos, exposições, restaurantes, pontos turísticos, passeios a pé, de carro, de barco, de helicóptero... Mas, se você for à Cidade Maravilhosa - especialmente na primeira ida - e não encontrar tempo para "dar uma de turista", que tal abdicar da tradicional visita ao Cristo Redentor e do passeio de bondinho do Pão-de-açúcar?Embora sejam experiências agradáveis, nada parece ser mais gratificante do que voar como um passarinho.
Quando se pensa em voo de Asa Delta, é comum sentir uma sensação de medo e insegurança. Mas, basta procurar um instrutor que se preocupe, no mínimo, com a manutenção preventiva de seu aparelho que, certamente, você desfrutará de um passeio relaxante, seguro e inesquecível. Na verdade, seu primeiro voo a bordo de uma asa delta marcará a primeira aula de um curso. "Faço voos há 23 anos e nunca me envolvi em acidentes", diz o instrutor de voo livre Ricardo Hamond. Foi em sua companhia que esta repórter fez a 'aula inaugural' na primeira ida à cidade.
Dentre as várias empresas que prestam o serviço, o importante é escolher aquela que ateste o bom estado do aparelho e da vela. Ricardo é um dos poucos a trocar de asa todos os anos. "Sempre compro um aparelho novo e normalmente repasso o anterior a outros instrutores. Alguns utilizam a mesma asa por vários anos, apenas substituindo a vela. Prefiro a troca completa por considerar uma medida importante ao prezar pela segurança", destacou.
Existem na cidade cerca de 50 instrutores aptos a realizar cursos. Os voos livres duplos e solos, com ou sem experiência, saem de um único ponto do Rio de Janeiro: topo da Pedra da Gávea, 700 metros acima do nível do mar. A aventura já começa no percurso e, apesar de a duração do voo - desde a decolagem até o pouso na areia da bela praia de São Conrado - ser de apenas 20 minutos, em média, é preciso reservar algumas horas ao passeio. A empresa contratada oferece também o traslado.
Estão aptos a voar pessoas com mais de 18 anos. Se a preocupação é a obesidade, aqueles com mais de 100 kg também podem participar. Neste caso, todas os fatores para um voo seguro devem ser considerados. A mesma recomendação vale para os que têm mais de 60 anos. "Já levei até senhores com mais de 80 anos", citou Hamond, enfatizando ainda que "é um esporte de muito equilíbrio psicológico". E, se por acaso, as condições climáticas forem um impedimento, o aluno - seja ele qual for - não voará ou pagará nada.

Sensação de "passarinho" por mais de dez minutos

Felizmente, a manhã da segunda-feira escolhida para o voo foi considerada 'nota 9' por Ricardo Hamond. "Os voos são feitos todos os dias, independentemente se é fim de semana ou feriado. Só não acontecem se as condições meteorológicas, direção dos ventos e intensidade ou altura das nuvens não forem favoráveis", explica. Ele acrescenta que só são permitidos voos entre as 8h e 17h. Embora todos digam que os passeios tenham um tempo estimado de oito a 30 minutos - e que, dependendo do tempo, pode chegar até uma hora -, os instrutores apenas descem até o solo.
Eles irão negar, mas voos mais longos são, sim, possíveis. Lá de baixo é fácil visualizar dezenas de 'pássaros-humanos' sobrevoando a zona sul da cidade por horas a fio, principalmente aqueles que voam por conta própria. Mesmo assim, vale a pena investir no passeio e conferir de cima a geografia da cidade. Voando devagar, com possibilidade de conversar tranquilamente, é possível visualizar, de um ângulo totalmente diferente, praias como Copacabana, Ipanema, o Pão-de-açúcar, parte da floresta da Tijuca, casarões milionários, casinhas simples do morro e parte da Baía de Guanabara.
Como muitos instrutores não permitem levar câmeras de vídeo ou fotográfica, o jeito é pagar pelos serviços. Portanto, reserve cerca de R$ 350,00 (R$ 230 por traslado, orientação, treinamento prévio e voo, mais R$ 120 pelo pacote do registro de imagens estáticas e em movimento), valor que pode ser, dependendo do humor do instrutor e da época do ano, para mais ou para menos. Há também uma taxa de R$ 10 referente ao uso da rampa de acesso.
Aliás, o alto valor da aventura é uma desvantagem. A sensação de voar livremente é tão interessante - embora o tempo passe voando, literalmente - que a vontade é de montar tudo, subir e saltar novamente. O jeito, para quem não pode investir outra vez, é se contentar com as lembranças de seu primeiro voo livre.

* Reportagem de minha autoria publicada no Diário de Natal, seção Turismo, em 26 de junho de 2009.
** Foto: Ricardo Hamond/Divulgação
*** Confira o vídeo da aventura clicando aqui!
**** Fiz o passeio num momento de folga do trabalho de cobertura da 15ª edição do Fashion Rio, semana de moda carioca. Veja uma amostra
aqui, aqui, aqui e aqui!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Devolução humana?

Agora é oficial. Após algum tempo sem ingerir carne vermelha, cheguei à sábia decisão de não mais, em hipótese alguma e sem a possibilidade de sentir falta, comer bichos. Comecei com um teste ao ignorar todos os pratos à base de carne vermelha. Achei que sentiria uma profunda falta, sobretudo se estivesse cara a cara com uma paçoca, picanha na brasa ou mesmo uma carne-de-sol na nata.

O fato é que desde a decisão inicial - há cerca de três meses - tenho seguido com afinco o processo para se chegar à prática do vegetarianismo. O principal motivo, na verdade, foi eu ter enjoado do sabor e textura de toda espécie de carne. Começou pela do caranguejo, seguida pela de boi e terminando por excluir de vez da minha dieta também frango, peixe e presunto de peru. Era o que eu apreciava. E era o que eu achava que precisava.

Há outros motivos por trás disso. Nunca achei correto o ser humano, nesta idade e com tal grau de evolução, continuar a matar para comer. Sequer existe luta. A vitória é garantida desde que aderiu ao sedentarismo e passou a cultivar e criar a própria comida. E foi descobrindo infinitas possibilidades gastronômicas, inclusive as que não necessitam de carnes, suprindo, assim mesmo, as necessidades do organismo.

Mas, o homem também inventou o processamento em massa. Supermercados, frigoríficos, enlatados, pré-cozidos, conservas, self-service e fastfood estão à disposição do ser humano moderno. Somado aos anúncios publicitários que 'garantem' status ao consumo de carnes, muitas pessoas sequer se questionam como aquele 'apetitoso' hambúrguer foi parar em suas mãos.

Longe de ser uma comparação em pé de igualdade com a realidade latina, o filme Nação Fast Food - Uma rede de corrupção (Fast Food Nation, México/EUA, 2006, Richard Linklater) faz uma crítica muito bem construída à influência mundial das indústrias americanas de fastfoods.

Nos Estados Unidos, o consumo das comidas rápidas é exorbitante. Para muitos, é comum fazer suas refeições diárias em locais com a proposta do McDonald’s. É fácil. É só ir ao balcão - pode ser direto do carro - e pedir um 'Big One' acompanhado de fritas e coca com gelo. Simples. Com dinheiro você compra comodidade e inserção na sociedade.

E por dinheiro essas indústrias exploram e mutilam pessoas, cometem as mais bárbaras atrocidades contra animais e encaixotam, a cada dia, um número cada vez maior de carne processada. O resultado: comida de péssima qualidade, muitas vezes contaminada, maus hábitos alimentares, obesidade, taxas alteradas, inconseqüência, falta de empatia, consumismo, dinheiro...

Começo a achar que a mesma carne que tanto ajudou na evolução humana agora tem sido um dos fatores de sua própria devolução.

* Fiz uso da palavra 'Devolução' em referência à banda americada 'Devo', que em suas músicas retrata o processo de 'devolução' da humanidade. Mesmo que o significado não conste no dicionário da língua portuguesa, não é difícil encontrar textos de brasileiros no Google que façam uso da palavra com esse significado.

** Veja o trailer de Fast Food Nation:

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Entrevista - Leilane Assunção

"Os gays não estão à vontade"

Cursando doutorado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a transexual potiguar Leilane Assunção, 28, é a segunda do país a obter tal feito. Convivendo desde nova com o preconceito social por ter nascido "mulher num corpo de homem", ela tem consquistado, através da educação, mais respeito, especialmente no ambiente acadêmico. No entanto, continuava a ser discriminada nos locais voltados ao público GLS que costumava frequentar. Numa análise breve, Leilane acredita que gays, bissexuais e lésbicas são mais bem aceitos do que os demais gêneros, como travestis, transexuais e transgêneros. E diz que existe homofobia até por parte dos donos de bares frequentados por esse público. Confira a entrevista:

Diário de Natal - Você costuma frequentar locais destinados ao público GLS?
Leilane Assunção - Não frequento mais a noite GLS, pois acredito que esteja falida. Isso começou a acontecer ainda quando a boate Avesso funcionava. Ela tinha um caráter de coexistência, era uma boate grande e começou a receber muitos heterossexuais e turistas. Com o tempo, o lugar começou a perder a identidade, passando a ser chamado de 'boate clubber'. E isso acabou afastando seu público gay, que era o público fiel, e, posteriormente, fechou as portas.

E quanto aos demais espaços?
Há outros locais destinados a esse público, mas de modo geral são abertos, já que o público heterossexual também frequenta. O fato é que os gays não estão se sentindo à vontade. A Vogue é a boate mais antiga e a única que consegue se manter apenas com o público GLS, mas presencei algumas cenas deprimentes e decidi não voltar mais. No geral, foi uma escolha ideológica evitar as boates gays clássicas. Também parei de frequentar alguns ambientes que até evitam assumir essa identidade, mas ficaram conhecidos como 'bares gay', como é o caso do Kafofu. Eu já fui destratada lá. Uma vez, duas amigas, ao se beijarem, receberam a conta. Ou seja, eles recebem um público gay, mas acabam sendo homofóbicos. Para não 'ofender' o público 'normal', evitam que o termo 'bar gay' se perpetue. É uma constatação do ponto de vista intelectual.

Que locais, então, você frequenta?
Sou muito bem inserida nos ambientes 'héteros'. Não tenho um roteiro fiel, mas sempre vou às festas que acontecem na UFRN, como calouradas, eventos no Circo Tropa Trupe e, principalmente, as do Setor II. Gosto muito de um boteco, daqueles bares mais escondidos que servem uma cerveja gelada, independente das pessoas que lá frequentam.

O que falta ao roteiro GLS de Natal?
Esses locais se reconhecerem como tais. O termo 'gay', do latim, remete ao alegre. Por séculos, esteve associado a algo positivo, mas no século XX houve uma estigmatização e o surgimento do discurso da normatividade social de que o gay deve ser discreto e não pode beijar em público. E é isso que deve ser evitado. Falta a esses locais mais harmonia e respeito, principalmente às outras escolhas. Sinto que eles aceitam gays, bissexuais e lésbicas, mas discriminam o restante.

* Entrevista de minha autoria publicada no Diário de Natal de domingo, 31 de maio de 2009. Leia, na íntegra, a reportagem "Um roteiro alegre e colorido" clicando aqui. E, para saber um pouco mais sobre Leilane Assunção, leia entrevista feita pelo portal Mix Brasil em janeiro deste ano.
** Foto: Ana Amaral/DN